Sobre dor
Sempre questionei a dificuldade que algumas pessoas têm em elaborar que perderam alguma coisa. Talvez por sempre ter aceitado minhas dores como um toque de punição, resquício da minha educação católica. Talvez por que seja mais simples sentir que algo nos é tirado porque somos responsáveis por aquilo, por que praticamos algo indizível ou por puro desmerecimento previsto na cartilha de bom comportamento do Universo. Você não age de acordo com as leis divinas, descumpre algum dos dez mandamentos e a vida automaticamente interrompe sua gravidez e te subtrai o sonho de ser mãe, justamente quando você se sente mãe. Você não doa dinheiro pro flanelinha que te implora por uma moeda no semáforo e como punição perde o seu emprego. Você passa perdido por alguém nas suas distrações de humano ocupado - demasiado humano - e automaticamente a vida reage e como consequência você passa a ser visto com indiferença por aquele à quem mais dedica sua atenção. Num segundo de falta de cuidado você reproduz um pensamento imbecil e sem sentido em
voz alta e a vida implacavelmente nunca mais permite que você diga nada. Pelo menos não pra quem realmente importa. Você não sabe amar e precocemente o destino resolve levar a única que te ama incondicionalmente, a única que um dia desejou que você realmente existisse. A dor é um eterno lembrete de que estamos em falta. Um inconsolável lembrete do que nos falta. Do quanto faltamos, conosco e com os outros. A dor emocional, a mais física de todas as dores, nos faz lembrar que viver nada mais é do que um eterno suportar. A morte, de quem amamos e de todas as nossas promessas de vida não é só uma lembrança dolorida. A morte nos transforma de maneira que não tem mais volta. Assim como nossas dores. Assim como a morte dos nossos sonhos e o enterro das nossas esperanças. Eu penso que às vezes nos machucamos tanto e causamos tanta dor que o sofrimento acaba alterando a ordem natural das coisas. A dor nos transforma e nunca mais conseguimos ser os mesmos. A dor nos deixa ou mais duros ou mais conectados, algumas vezes mais sensíveis e até mais fortes. Que sejamos despertos o suficiente pra conseguirmos extrair desses momentos tão dilacerantes a paciência e compreensão necessária pra entender que sem dor não há amor e até mesmo serenidade. A dor faz parte. Quando a gente fica e quando a gente parte...