sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

 Enquanto caminhava calmamente com meus pedacinhos pelos corredores apertados do shopping, entre a multidão distraída à procura de presentes, um casal me chamou a atenção. Em meio à tantos outros, era o único que seguia abraçado. Os braços dele sobre os ombros dela, enquanto a moça sorridente se apoiava em sua cintura. Eles trocavam olhares e sorrisos por debaixo da máscara enquanto admiravam uma vitrine decorada com luzinhas de natal. 

A cena, comum por sua simplicidade, teria me passado despercebida se não fosse pelo detalhe carinhoso do braço dele apoiado no ombro dela. Detalhe que me revirou do avesso e se transformou num nó na goela e logo mais abaixo dela, um forte aperto no peito. 

Automaticamente a sensação, velha conhecida, tomou conta das minhas memórias e me teletransportei pra cena em que te observei, impercebível, caminhando tranquilo entre os corredores do shopping, também observando as vitrines entre sacolas e luzinhas de natal, abraçado com ela. 

Lembrei da agonia que senti em precisar esconder da minha mãe, que na época era minha companhia nos corredores apressados dessa época do ano, a angústia e sensação do mundo sumindo sob os meus pés. Será que um dia aprendo a disfarçar a vontade de deixar existir enquanto o mundo insiste em continuar sendo mundo?

Engulo seco e tento me distrair do que agora é apenas dor, não antes de, por um lapso temporário de falta de racionalidade causado pelo peito em chamas, checar mais uma vez a caixa de entrada do celular. É claro que a única coisa piscando são as luzinhas de natal da loja ao lado. O seu abraço não está reservado para os meus braços, nunca esteve. O tempo não cura tudo. A única coisa que o tempo faz é tirar o incurável do centro das atenções. 

 Estava examinando meus fios de cabelo branco enquanto encarava minha imagem cansada no espelho e me lembrei que, quando criança, recebia da minha mãe por fios de cabelos brancos arrancados. Calma, eu explico: dez centavos por fio de cabelo branco. Ela deitava a cabeça no meu colo enquanto assistíamos a novela e eu ficava ali, exercendo meu trabalho infantil remunerado enquanto vibrava a cada fio encontrado: “mãe, encontrei mais um!”

Isso fazia com que eu enxergasse minha mãe, no alto dos meus 8 anos, muito, mas muito velha - velha a ponto de ter cabelos brancos. Calculo mentalmente a idade que minha mãe tinha na época: 35 anos. Minha mãe e seus cabelos brancos eram 2 anos mais jovens do que eu… vejam só! E ela apoiava a cabeça no meu colo, uma criança de 8 anos. 


Sei que é comum enxergarmos nossos pais muito velhos quando somos crianças mas a verdade é que ver nossos pais envelhecerem de verdade, quando já somos adultos, é uma dor em constante evolução. Observar esse processo e reconhecer em nossos próprios rostos, rugas, sorrisos marcados e - padrões de nascimento de cabelos brancos, contudo, só faz parte da vida de quem teve o privilégio - sim, privilégio - de ver os pais envelhecerem. Mas essa falta, felizmente, menos comum, acaba sendo absorvida somente por aqueles que já passaram pela dor de não poder mais comungar com o envelhecimento daqueles que nos geraram a vida. 


Minha mãe, no finalzinho dos seus dias, estava em transição e deixando os cabelos já grisalhos darem conta do seu novo visual de mulher madura. Por questões que dizem respeito à uma inteligência maior que a minha, ela não está mais entre nós e não posso apoiar minha cabeça em seu colo para que ela arranque meus cabelos brancos (de forma remunerada, é claro)! Mas sigo imaginando como ela teria ficado ainda mais linda com essa candura toda. E enquanto sigo encontrando os intrusos brancos que insistem em povoar minha cabeça, recordo de uma lembrança que encontrei faz pouco tempo, esquecida entre uma blusa de minha mãe que guardei por pura saudade: um fio de cabelo. Todo branco. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

 Oi, mãe. Como estão as coisas por aí? Faz tempo que eu não escrevo. Fraqueza minha, eu sei. Acho que eu passo os dias fingindo que você continua desse lado, do meu lado, e não conseguir falar com você faz parte da dificuldade que sinto em elaborar que você se foi. Preciso fazer um esforço absurdo pra conseguir tirar a imagem de você dormindo pela última vez. A dor nessas horas é tão intensa que parece que eu vou desintegrar. Será que alguém já morreu de tanto chorar, mãe? Não vale de rir. Sei que você pensou nisso. Os cachorrinhos estão bem, inclusive estão aqui, nesse momento, brincando de lava-jato com as lágrimas que insistem em escorrer pelo meu rosto. Gosto de pensar que eles vêm me consolar, mas, convenhamos, eles só gostam do sabor salgado, vamos combinar. De vez em quando eu ainda encontro um fio de cabelo teu em alguma peça de roupa velha e é inacreditável pensar que aquela é a única coisa sua palpável que ainda existe. E eu seguro esse pedacinho teu com todo meu carinho e amor e peço pra Deus, pro Universo, pra tudo que existe, que onde quer que você esteja, você consiga sentir o meu amor. Guardei um fio dentro de uma blusa sua que eu gostava. Fica na minha cabeceira. Tem dias que eu preciso vestir suas roupas pra tentar te sentir mais perto de mim. Respiro fundo pra tentar encontrar algum resquício do seu cheiro, mas ele já se foi. Saudade é um negócio complicado. A gente tá andando distraída e do nada surge uma lembrança daquelas que engasgam no peito e acabam escorrendo pelos olhos. Eu sei que você não gostaria de me ver triste assim. Desculpa, mãe. Eu tenho feito o meu melhor. Teu neto está lindo e crescendo muito rápido. O Flá é um paizão. Espero que de onde você esteja você possa ver. O pai tá se virando. Você não vai acreditar, mas acredita que ele fez rabanada pra mim? É a tal da coisa que a gente só acredita vendo e quando tá vendo, não acredita, rs. Datas importantes são mais difíceis pra mim, mas eu sinto a sua falta o tempo todo. Tem coisa que só colo de mãe, né? Sei que você sabe. Não se preocupa comigo, essa dor vai passar. Tudo passa. 


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

 Era um fim de tarde bonito quando você deixou de me amar. Desses que vão ficando cor de rosa alaranjado até transformarem o céu numa imensidão de cor. Eu percebi que seus olhos não retribuíram o brilho dos meus e senti meu peito pesar como um milhão de estrelas que deixaram de existir e só se tem notícias pela luz prestes a se apagar. 

Era uma noite fria quando você deixou de me amar. O silêncio confortável que existe entre duas pessoas que se completam há muito tempo, foi abalado por um barulho estranho, vindo de dentro do meu peito. Nossas mãos se desencontraram embaixo do cobertor e não se fez mais calor. 

Era uma manhã preguiçosa quando você deixou de me amar. Você não me segurou com força embaixo do lençol e não me envolveu na prisão dos teus braços para que eu ficasse mais perto. Você logo estava longe, com gosto de café. E eu senti um gosto amargo, sozinha demais longe do seu abraço.
 
Era um dia normal quando você deixou de me amar. Você viu um livro que eu gostava na estante, minha bolacha preferida na prateleira, minha bebida preferida em promoção, meu quadro na parede e não se lembrou de mim. E foi assim, num dia como outro qualquer, que você deixou de me amar. 


sábado, 4 de dezembro de 2021

 Estava na brinquedoteca observando meu afilhado de bochechas rosadas brincar distraído com alguns cubos, quando um pequeno, que recebia  a atenção do seu pai,  arregalou os olhos, assustado, fazendo uma cara de espanto enquanto segurava a cabeça de uma boneca na mão: “pai, a menina quebrou! A menina tá quebrada”!

Suspirei pesado, junto com o menininho que continuava repetindo incansavelmente: “a menina tá quebrada! A menina tá quebrada!” A

A menina tá quebrada, pequeno. A menina tá quebrada. Acontece. Mais do que a gente gostaria. Gente grande, de carne e osso, também quebra. Enquanto mais de corpo e alma se entrega, mais fácil desintegrar, deixar alguns pedaços por aí. Pedaço de gente, pedaços nossos. A gente se desmonta, nossas esperanças se esfacelam, viramos uma dor pulsante que insiste em acordar no dia seguinte. E quebrados, acordamos. Às vezes pela metade, muitas vezes sem coração, outras tantas só com o corpo presente, assim como a menina. “Hoje não tenho cabeça pra isso”, e seguimos sem um pedaço. “Perdi meu ombro amigo”, e nos falta outra fatia. Partem nosso coração e, mesmo assim, o mundo continua sendo mundo. 

Sabe, lindo, quebrar dói. Tudo dói tanto. Doem partes de mim que eu nem sabia que tinha. Doem até as partes quebradas - as que não fazem mais parte de mim. Doem partes que nem nome têm. E talvez, seja essa a dor maior: a falta de nome, de explicação… de onde veio a lança que arremessou meus pedaços pra fora e me partiu ao meio. 


Eu sei que a única coisa que posso fazer estando quebrada é aguentar. Eu suporto. Aguento. Sem sorrir, sem chorar, sem pensar, sem emitir um som. Lembro do meu irmão dizendo, enquanto observo o menininho segurando o corpo da boneca, que é só cerrar o maxilar que se aguenta. E eu aguento. Só que depois a onda vem, sempre mais forte e me derruba. Me derruba, não; me soterra. Mas aí, sozinha, não tem problema desabar. E eu escuto a música tocando no rádio, sinto o cheiro do risoto que eu não fiz pra você, resisto ao impulso te de contar que acertei aquela receita e aí, a angústia toda, a falta de ar toda, o desespero todo e meus pedaços quebrados espalhados todos pelo chão me lembram que eu morri pra você e tem tanta coisa que eu nunca te disse antes que tudo se quebrasse.