Enquanto caminhava calmamente com meus pedacinhos pelos corredores apertados do shopping, entre a multidão distraída à procura de presentes, um casal me chamou a atenção. Em meio à tantos outros, era o único que seguia abraçado. Os braços dele sobre os ombros dela, enquanto a moça sorridente se apoiava em sua cintura. Eles trocavam olhares e sorrisos por debaixo da máscara enquanto admiravam uma vitrine decorada com luzinhas de natal.
A cena, comum por sua simplicidade, teria me passado despercebida se não fosse pelo detalhe carinhoso do braço dele apoiado no ombro dela. Detalhe que me revirou do avesso e se transformou num nó na goela e logo mais abaixo dela, um forte aperto no peito.
Automaticamente a sensação, velha conhecida, tomou conta das minhas memórias e me teletransportei pra cena em que te observei, impercebível, caminhando tranquilo entre os corredores do shopping, também observando as vitrines entre sacolas e luzinhas de natal, abraçado com ela.
Lembrei da agonia que senti em precisar esconder da minha mãe, que na época era minha companhia nos corredores apressados dessa época do ano, a angústia e sensação do mundo sumindo sob os meus pés. Será que um dia aprendo a disfarçar a vontade de deixar existir enquanto o mundo insiste em continuar sendo mundo?
Engulo seco e tento me distrair do que agora é apenas dor, não antes de, por um lapso temporário de falta de racionalidade causado pelo peito em chamas, checar mais uma vez a caixa de entrada do celular. É claro que a única coisa piscando são as luzinhas de natal da loja ao lado. O seu abraço não está reservado para os meus braços, nunca esteve. O tempo não cura tudo. A única coisa que o tempo faz é tirar o incurável do centro das atenções.