Estava na brinquedoteca observando meu afilhado de bochechas rosadas brincar distraído com alguns cubos, quando um pequeno, que recebia a atenção do seu pai, arregalou os olhos, assustado, fazendo uma cara de espanto enquanto segurava a cabeça de uma boneca na mão: “pai, a menina quebrou! A menina tá quebrada”!
Suspirei pesado, junto com o menininho que continuava repetindo incansavelmente: “a menina tá quebrada! A menina tá quebrada!” A
A menina tá quebrada, pequeno. A menina tá quebrada. Acontece. Mais do que a gente gostaria. Gente grande, de carne e osso, também quebra. Enquanto mais de corpo e alma se entrega, mais fácil desintegrar, deixar alguns pedaços por aí. Pedaço de gente, pedaços nossos. A gente se desmonta, nossas esperanças se esfacelam, viramos uma dor pulsante que insiste em acordar no dia seguinte. E quebrados, acordamos. Às vezes pela metade, muitas vezes sem coração, outras tantas só com o corpo presente, assim como a menina. “Hoje não tenho cabeça pra isso”, e seguimos sem um pedaço. “Perdi meu ombro amigo”, e nos falta outra fatia. Partem nosso coração e, mesmo assim, o mundo continua sendo mundo.
Sabe, lindo, quebrar dói. Tudo dói tanto. Doem partes de mim que eu nem sabia que tinha. Doem até as partes quebradas - as que não fazem mais parte de mim. Doem partes que nem nome têm. E talvez, seja essa a dor maior: a falta de nome, de explicação… de onde veio a lança que arremessou meus pedaços pra fora e me partiu ao meio.
Eu sei que a única coisa que posso fazer estando quebrada é aguentar. Eu suporto. Aguento. Sem sorrir, sem chorar, sem pensar, sem emitir um som. Lembro do meu irmão dizendo, enquanto observo o menininho segurando o corpo da boneca, que é só cerrar o maxilar que se aguenta. E eu aguento. Só que depois a onda vem, sempre mais forte e me derruba. Me derruba, não; me soterra. Mas aí, sozinha, não tem problema desabar. E eu escuto a música tocando no rádio, sinto o cheiro do risoto que eu não fiz pra você, resisto ao impulso te de contar que acertei aquela receita e aí, a angústia toda, a falta de ar toda, o desespero todo e meus pedaços quebrados espalhados todos pelo chão me lembram que eu morri pra você e tem tanta coisa que eu nunca te disse antes que tudo se quebrasse.
Nenhum comentário:
Postar um comentário