segunda-feira, 24 de maio de 2021

Trilho do trem

Sempre tenho a sensação de que estou deixando de existir nos dias em que acordo precisando não te amar. Vou desintegrando aos poucos feito areia fina escapando entre os dedos. Sair pra correr não adianta porque ao invés de aliviar o peito, traz-me a sensação de que estou sozinha abandonada no trilho do trem. E eu olho pro trilho se tornando pequenininho enquanto se afasta dos meus olhos e se aproxima do fim e desconfio que mesmo perdida, estou mais perto da minha casa que da sua; mas mesmo assim saio correndo pra você. Chorar também não adianta (a não ser pra desentupir as vias aéreas do ranho, ouvi dizer) porque não importa o quanto eu desidrate, nada muda o fato de que nada faz sentido quando você não segura minha mão pra atravessar a rua. 

Não consigo entender como o mundo consegue seguir sendo mundo quando você não tá aqui, segurando minha mão pra atravessar a rua. A noite insistindo em cair através da sacada e a gente soprando fumaças que não foram compartilhadas entre nossos lábios. O cheiro do frescor do café resistindo em existir só pra mim. Te enxergo como um vulto no final da subida enquanto eu fico pra trás e eu tento acelerar o passo e respirar mais fundo e ir mais rápido mas eu não tenho mais fôlego e enquanto mais eu respiro menos eu sinto você. Meus pulmões doem, minhas pernas doem, meus olhos doem e eu preciso continuar correndo e seguindo e subindo e eu não chego nunca por que eu sequer sei onde a trilha termina... perdi minha bússola e não sei mais me encontrar. Não tô mais perdida porque nem sei onde estive. Te vejo ao longe, diminuindo e não consigo te tocar enquanto você corre na direção oposta ao trilho do trem. Eu tento te chamar mas não consigo, minha voz não sai, pois agora estou me afogando no oceano de sal e preciso prender a respiração. Quanto tempo consigo ficar sem respirar? Quanto tempo sem sentir você? Só sinto a areia fina escapando-me entre os dedos. O sereno surgindo pela tua sacada sem tocar nossas pernas entrelaçadas, que doem. Sou apenas uma moeda antiga sobre o trilho do trem. E enquanto a noite cai, o mundo se atreve a ser mundo enquanto você não está por perto.

sábado, 22 de maio de 2021

Pedras roxas

Hoje enquanto pintava um mar de pedras roxas pensei que quando criança eu adoraria ter uma tela exatamente como esta pendurada na parede. Logo em seguida pensei na esquisitice da criança que gostaria de um mar de pedras roxas enfeitando a parede do quarto ao invés de um par de ursinhos carinhosos. Também fiz um minuto de silêncio pela inquietude da mente adulta que esta criança teria, pobre alma. Certamente seria uma dessas adultas que pintam mares com pedras roxas e paisagens com nuvens em formato de discos voadores. 
Quando eu era criança já não me sentia dentro da minha pele e sentia, de uma maneira que sempre pareceu fazer mais sentido que pra outras crianças, que existia alguma coisa dentro do meu peito que eu precisava colocar pra fora ou deixaria de existir. Eu era muito agitada e dividia meu tempo depois da escola entre aulas de judô, balé, artesanato, inglês, pintura e escotismo. Também tentei aulas de canto, piano, flamenco, jazz e qualquer coisa que pudesse me ocupar o tempo e fizesse minha cabeça parar de funcionar, nem que fosse por algumas horas. Eu estava sempre pensando e sofrendo pelo mundo. Eu chorava quando via outras crianças na rua pedindo esmola e chorava também quando o bambi morria na história. Eu chorava porque imaginava que um dia minha mãe ia morrer e chorava por achar que as outras crianças não gostavam de mim. Eu adorava o recesso das aulas porque amava frenquentar a colônia de férias do sesc onde existia uma biblioteca enorme e nessa época eu podia emprestar mais do que 3 livros por vez. Passava horas esparramada naquele canto cheio de almofadas enquanto as crianças que não gostavam de pedras roxas brincavam de esconde esconde do lado de lá. Determinada, decidi que iria ler a biblioteca infantil inteira para assim poder ter acesso aos livros com mais páginas, embora o que eu quisesse mesmo fosse impressionar meu pai. Ele adorava meu interesse pelos livros e me estimulava trazendo pra casa muitos exemplares que conseguia por aí. Eu sempre ficava ansiosa pra terminar de ler tudo de uma vez e passava horas sem incomodar ninguém com meus questionamentos. Eu lembro que tinha 12 anos quando fui ler “Incidente em Antares”, um livro de quase 500 páginas - nesta época eu era obcecada por Érico Veríssimo - e me senti excitada pela primeira vez. O livro narrava uma cena inusitada sobre dedos curiosos - que nunca mais esqueci - e naquele instante eu descobri um mundo além de letras e frases. Acho que foi quando eu deixei de ser criança pela primeira vez. A partir de então fui criando histórias na minha cabeça onde apenas uma personagem de final feliz poderia ser. Só a inquietude da minha mente é capaz de entender o tamanho das projeções de desejo e paixão que as personagens dos livros me trouxeram. Acho que por conta disso me tornei uma adulta intensa demais, exigente demais, que sente tudo de uma forma muito profunda e de um jeito irritante além da conta. Do tipo que cria um mundo cercado de pedras roxas. É preciso muito pra prender minha atenção e as singularidades que direcionam meus desejos parecem ser menos líquidas do que das pessoas que nunca pensaram em um mar de pedras coloridas... 

Muitos anos depois eu continuo precisando ocupar meu tempo pra não sumir e deixar de existir mas a verdade é que eu sinto tanto tudo o tempo todo que acho que nem existo mais. A parte que persiste sente falta do canto das almofadas e da dança dos dedos curiosos.  

A criança que adoraria a paisagem de cores inusitadas segue presa no meu mar de pedras roxas enquanto as outras crianças brincam de se esconder do lado de fora. Só me resta esperar o disco voador das minhas nuvens me buscar.