terça-feira, 28 de setembro de 2021

Você

Amo-te tanto que seria irresponsável mensurar Enquanto me concentro
ou tento e falho no intento
na falta de sentido que me cerca 
quando não te tenho, mas te tento 

Desconheço algo com o que eu

consiga estimar o tanto que tua 

ausência grita

É reticente, sente, insistente, replica 

Indecifrável como uma sinfonia de irresolutos universais  

Nada vejo sem teu olhar

Não beijo longe da tua boca 

Nada é o que resta quando te vejo pela fresta 

Nada é o que sobra enquanto eu,

longe do teu toque.

Tua falta é inquietação pulsante e me preenche além da alma que eu julgo que exista 

Não há quem resista

Toque-se, pele, apele 

Teu peito enquanto longe do meu alcance

Desabriga minha cabeça que não sabe onde se apoia

Meu amor é força indiscernível 

Só há desejo que persista 

Se me faltas me torturas com a ausência que me pesa 

Desfaleço em mim 

Quando me falta tu 

Tudo, inteiro, todo nu 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Trilho do trem

Sempre tenho a sensação de que estou deixando de existir nos dias em que acordo precisando não te amar. Vou desintegrando aos poucos feito areia fina escapando entre os dedos. Sair pra correr não adianta porque ao invés de aliviar o peito, traz-me a sensação de que estou sozinha abandonada no trilho do trem. E eu olho pro trilho se tornando pequenininho enquanto se afasta dos meus olhos e se aproxima do fim e desconfio que mesmo perdida, estou mais perto da minha casa que da sua; mas mesmo assim saio correndo pra você. Chorar também não adianta (a não ser pra desentupir as vias aéreas do ranho, ouvi dizer) porque não importa o quanto eu desidrate, nada muda o fato de que nada faz sentido quando você não segura minha mão pra atravessar a rua. 

Não consigo entender como o mundo consegue seguir sendo mundo quando você não tá aqui, segurando minha mão pra atravessar a rua. A noite insistindo em cair através da sacada e a gente soprando fumaças que não foram compartilhadas entre nossos lábios. O cheiro do frescor do café resistindo em existir só pra mim. Te enxergo como um vulto no final da subida enquanto eu fico pra trás e eu tento acelerar o passo e respirar mais fundo e ir mais rápido mas eu não tenho mais fôlego e enquanto mais eu respiro menos eu sinto você. Meus pulmões doem, minhas pernas doem, meus olhos doem e eu preciso continuar correndo e seguindo e subindo e eu não chego nunca por que eu sequer sei onde a trilha termina... perdi minha bússola e não sei mais me encontrar. Não tô mais perdida porque nem sei onde estive. Te vejo ao longe, diminuindo e não consigo te tocar enquanto você corre na direção oposta ao trilho do trem. Eu tento te chamar mas não consigo, minha voz não sai, pois agora estou me afogando no oceano de sal e preciso prender a respiração. Quanto tempo consigo ficar sem respirar? Quanto tempo sem sentir você? Só sinto a areia fina escapando-me entre os dedos. O sereno surgindo pela tua sacada sem tocar nossas pernas entrelaçadas, que doem. Sou apenas uma moeda antiga sobre o trilho do trem. E enquanto a noite cai, o mundo se atreve a ser mundo enquanto você não está por perto.

sábado, 22 de maio de 2021

Pedras roxas

Hoje enquanto pintava um mar de pedras roxas pensei que quando criança eu adoraria ter uma tela exatamente como esta pendurada na parede. Logo em seguida pensei na esquisitice da criança que gostaria de um mar de pedras roxas enfeitando a parede do quarto ao invés de um par de ursinhos carinhosos. Também fiz um minuto de silêncio pela inquietude da mente adulta que esta criança teria, pobre alma. Certamente seria uma dessas adultas que pintam mares com pedras roxas e paisagens com nuvens em formato de discos voadores. 
Quando eu era criança já não me sentia dentro da minha pele e sentia, de uma maneira que sempre pareceu fazer mais sentido que pra outras crianças, que existia alguma coisa dentro do meu peito que eu precisava colocar pra fora ou deixaria de existir. Eu era muito agitada e dividia meu tempo depois da escola entre aulas de judô, balé, artesanato, inglês, pintura e escotismo. Também tentei aulas de canto, piano, flamenco, jazz e qualquer coisa que pudesse me ocupar o tempo e fizesse minha cabeça parar de funcionar, nem que fosse por algumas horas. Eu estava sempre pensando e sofrendo pelo mundo. Eu chorava quando via outras crianças na rua pedindo esmola e chorava também quando o bambi morria na história. Eu chorava porque imaginava que um dia minha mãe ia morrer e chorava por achar que as outras crianças não gostavam de mim. Eu adorava o recesso das aulas porque amava frenquentar a colônia de férias do sesc onde existia uma biblioteca enorme e nessa época eu podia emprestar mais do que 3 livros por vez. Passava horas esparramada naquele canto cheio de almofadas enquanto as crianças que não gostavam de pedras roxas brincavam de esconde esconde do lado de lá. Determinada, decidi que iria ler a biblioteca infantil inteira para assim poder ter acesso aos livros com mais páginas, embora o que eu quisesse mesmo fosse impressionar meu pai. Ele adorava meu interesse pelos livros e me estimulava trazendo pra casa muitos exemplares que conseguia por aí. Eu sempre ficava ansiosa pra terminar de ler tudo de uma vez e passava horas sem incomodar ninguém com meus questionamentos. Eu lembro que tinha 12 anos quando fui ler “Incidente em Antares”, um livro de quase 500 páginas - nesta época eu era obcecada por Érico Veríssimo - e me senti excitada pela primeira vez. O livro narrava uma cena inusitada sobre dedos curiosos - que nunca mais esqueci - e naquele instante eu descobri um mundo além de letras e frases. Acho que foi quando eu deixei de ser criança pela primeira vez. A partir de então fui criando histórias na minha cabeça onde apenas uma personagem de final feliz poderia ser. Só a inquietude da minha mente é capaz de entender o tamanho das projeções de desejo e paixão que as personagens dos livros me trouxeram. Acho que por conta disso me tornei uma adulta intensa demais, exigente demais, que sente tudo de uma forma muito profunda e de um jeito irritante além da conta. Do tipo que cria um mundo cercado de pedras roxas. É preciso muito pra prender minha atenção e as singularidades que direcionam meus desejos parecem ser menos líquidas do que das pessoas que nunca pensaram em um mar de pedras coloridas... 

Muitos anos depois eu continuo precisando ocupar meu tempo pra não sumir e deixar de existir mas a verdade é que eu sinto tanto tudo o tempo todo que acho que nem existo mais. A parte que persiste sente falta do canto das almofadas e da dança dos dedos curiosos.  

A criança que adoraria a paisagem de cores inusitadas segue presa no meu mar de pedras roxas enquanto as outras crianças brincam de se esconder do lado de fora. Só me resta esperar o disco voador das minhas nuvens me buscar.  


sábado, 6 de março de 2021

 (Pensando alto) 


Falamos em fazer amor, mas amor se faz? 


Amor é autodependente,

 presença irritante que não pede nenhum favor a não ser nossa própria destruição. 

Aparece sem sem convidado e não vai embora se 

ordenado... 

Amor sufoca, amor corrói, amor destrói... 

Corrompe e invade nossas cabeças; 

amor é martelo, sino retinindo, marcação constante que não dá brecha pra contra-ataque, carrapato chupando sangue da pele, amor que 

machuca - repele.

Amor obsessão. 

Amor torneira pingando: 

até quando, 

até

quando, 

até quando?


Entoa cantos de exaustão em nossa mente

Amar-te até a morte, 

até Vênus, 

até a lua que te dei, até os anéis de Saturno que te prometi buscar (mas promessas de amor não valem nada, meu amor)...

Esse amor indiferente que me 

ocupa os pensamentos,

 amor que nos carcome paulatinamente, 

câncer faminto, 

ácido 

de um sim negativo,

vida que brota destruindo.

Resto de vida que se torna 

desatino... 


Mas amar não é negar o medo, a razão, o tempo? Amar é negar a si próprio 

quando você quer mesmo é que o outro seja você! Amar é afirmação nascida de negativas, e não amar é sofrer mais. 

Uma vez me falaram da liberdade do 

vento... 

Livre sou eu na prisão dos teus braços!

Liberdade sem limites acaba em anarquia, em niilismo destruidor, surubas sem tesão. 

Amor é como uma fotografia que fixa limites para superá-los. Amor é renúncia a muitas coisas, mas também a maior transcendência que podemos almejar neste mundo. 

Amar é tornar dois um, e amor mais perfeito não há do que a mãe com seu 

filho no ventre. 

Amor é parto, é dor; nascemos chorando, 

vivemos sofrendo e 

morremos amando...

Morremos de amor.... 

domingo, 31 de janeiro de 2021

 Sobre dor 

Sempre questionei a dificuldade que algumas pessoas têm em elaborar que perderam alguma coisa. Talvez por sempre ter aceitado minhas dores como um toque de punição, resquício da minha educação católica. Talvez por que seja mais simples sentir que algo nos é tirado porque somos responsáveis por aquilo, por que praticamos algo indizível ou por puro desmerecimento previsto na cartilha de bom comportamento do Universo. Você não age de acordo com as leis divinas, descumpre algum dos dez mandamentos e a vida automaticamente interrompe sua gravidez e te subtrai o sonho de ser mãe, justamente quando você se sente mãe. Você não doa dinheiro pro flanelinha que te implora por uma moeda no semáforo e como punição perde o seu emprego. Você passa perdido por alguém nas suas distrações de humano ocupado - demasiado humano - e automaticamente a vida reage e como consequência você passa a ser visto com indiferença por aquele à quem mais dedica sua atenção. Num segundo de falta de cuidado você reproduz um pensamento imbecil e sem sentido em

voz alta e a vida implacavelmente nunca mais permite que você diga nada. Pelo menos não pra quem realmente importa. Você não sabe amar e precocemente o destino resolve levar a única que te ama incondicionalmente, a única que um dia desejou que você realmente existisse. A dor é um eterno lembrete de que estamos em falta. Um inconsolável lembrete do que nos falta. Do quanto faltamos, conosco e com os outros. A dor emocional, a mais física de todas as dores, nos faz lembrar que viver nada mais é do que um eterno suportar. A morte, de quem amamos e de todas as nossas promessas de vida não é só uma lembrança dolorida. A morte nos transforma de maneira que não tem mais volta. Assim como nossas dores. Assim como a morte dos nossos sonhos e o enterro das nossas esperanças. Eu penso que às vezes nos machucamos tanto e causamos tanta dor que o sofrimento acaba alterando a ordem natural das coisas. A dor nos transforma e nunca mais conseguimos ser os mesmos. A dor nos deixa ou mais duros ou mais conectados, algumas vezes mais sensíveis e até mais fortes. Que sejamos despertos o suficiente pra conseguirmos extrair desses momentos tão dilacerantes a paciência e compreensão necessária pra entender que sem dor não há amor e até mesmo serenidade. A dor faz parte. Quando a gente fica e quando a gente parte...

sábado, 29 de junho de 2013

Sem apego
Tem sossego
Revela, calma
Se vive sem
Se tem apego
Perde-se, medo
Desassossega a alma
que a gente tem

quinta-feira, 27 de junho de 2013

I

Ela acordou mais bonita naquele dia, por mais que a noite tenha passado em claro. Agora era sempre assim, desde a primeira vez. Passava as horas, os dias, as semanas, às vezes até mesmo os meses, esperando. Sempre esperando. Havia se arrependido de todas as vezes em que invertera a ordem correta das coisas, que no momento, parecia ser: esperar. Logo ela, tão paciente quanto uma chaleira fervendo no fogão, não podia fazer nada a não ser esperar.

Olhando-se no espelho se viu mulher. Sentiu-se menina. As mesmas emoções de uma adolescente. Nem parecia que a vida já havia tomado o rumo que tomara, que os acontecimentos haviam modificado todos os seus planos.

Adorava sentir o coração disparado, as mãos suando frio. Adorava poder novamente sentir. No começo até resistiu, talvez até mais por medo do que por opção. Mas não demorou pra sua vontade se transformar num desejo incontrolável, insaciável. Um desejo de vida, um desejo do novo, um desejo de apego.

Sempre foi uma pessoa completamente entregue às sensações. Acreditava que as sensações eram a verdade dos sentimentos. E naquele dia, especialmente, entregou-se àquela sensação de proibição que enlouquecia sua cabeça enquanto era enlouquecida no colchão. Quem sou eu, perguntava, enquanto apreciava a expressão de satisfação em seu rosto. Não conseguia definir no que havia se transformado, mas sabia dizer, já naquele momento, que nunca mais seria a mesma.